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03.10.2010. Artigo: Horizonte autoritário

 (*) Carlos Alberto Di Franco

Escrevo este artigo antes da abertura das urnas. Mas o quadro nacional, independentemente do resultado das eleições, desperta graves preocupações. O presidente Lula começa a descer a rampa do poder. Em janeiro, agasalhado por uma popularidade sem precedentes, cravará seu nome na história. A caneta, no entanto, mudará de dono.

O Brasil de hoje, independentemente dos problemas que assombram a economia mundial, é um emergente respeitável. Os tucanos, com razão, atribuem nossa boa performance às sementes plantadas no governo FHC. Já os petistas, colados nos notáveis índices de aprovação presidencial, jogam todas as fichas na conta do presidente da República. Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, com seus erros e acertos, contribuíram positivamente para que chegásssemos ao atual patamar. Fernando Henrique modernizou o Estado. Lula iniciou o resgate da fatura social.

O Brasil melhorou. É indiscutível. Mudamos de patamar. Tal desempenho, apropriado sem pudores pelo governo petista, decorreu de um cenário internacional muito favorável ao Brasil. Mas, internamente, é, em parte, uma consequência das políticas sociais adotadas pelo governo.

O Bolsa-Família foi um instrumento de promoção social. Mas é preciso que essa ferramenta de inclusão seja a porta de entrada da cidadania. E isso não aconteceu. Os programas sociais, cuja validade não contesto, renderam milhões de votos, mas não fizeram cidadãos. Só a educação é capaz de transformar eleitores de cabresto em pessoas livres e conscientes. A última fase do governo Lula, marcada por constantes episódios de corrupção, cumplicidade com oligarquias nefastas e manifestações de desprezo pelas liberdades públicas, vai ganhando contornos de um indesejável populismo autoritário. O lulismo que se avizinha lembra muito o peronismo que empurrou a Argentina para o lusco-fusco do desenvolvimento.

Lula manifesta irritação com o trabalho da imprensa independente. Seus sucessivos e reiterados ataques à imprensa, balanceados com declarações formais de adesão à democracia, não conseguem mais esconder a verdadeira face dos que, mesmo legitimados pela força dos currais eleitorais, querem tudo, menos democracia. Para o presidente da República, um político que deve muito à liberdade de imprensa e de expressão, imprensa boa é a que fala bem. Jornalismo que apura e opina com isenção incomoda e deve ser extirpado.

O presidente da República, travestido em chefe de facção, deveria olhar para os demandos que transformaram a Casa Civil num autêntico balcão de negócios. Mas não é o que o presidente faz. Ao contrário. Num exercício incrível de leniência, o presidente da República abraça os corruptos e ataca os denunciam a corrupção.

Recente manifesto de juristas, intelectuais e artistas, divulgado em São Paulo, no Largo São Francisco, acendeu a luz amarela no cenário da nossa democracia. "O País vive um caudilhismo que se impõe assustadoramente", declarou José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de Lula. "Na certeza da impunidade (Lula), já não se preocupa mais nem mesmo em valorizar a honestidade", disse Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT. É o grito de lideranças insuspeitas. Gente que lutou contra a ditadura denuncia o presidente da República como demolidor das instituições. É muito sério.

Na verdade, cabe à imprensa um papel fundamental na salvaguarda da democracia. O presidente da República, seu partido e sua candidata, independentemente das declarações de ocasião em favor da liberdade de imprensa, resistem ao contraditório e manifestam desagrado com o exercício normal das liberdades públicas. Não tenhamos receio das renovadas tentativas de atribuir à imprensa falsos propósitos golpistas. Trata-se de síndrome persecutória, uma patologia política bem conhecida.

A biografia do presidente Lula foi construída graças aos seus méritos pessoais e aos amplos espaços que a democracia oferece a todos os cidadãos. Mas o poder fascina e confunde. E os bajuladores, de ontem, de hoje e de sempre, são o veneno da democracia. Preocupa, e muito, o entusiasmo do presidente da República, de sua candidata e de seu partido com modelos políticos capitaneados por caudilhos.

Não é de hoje a fina sintonia do petismo com governos autoritários. O Foro de São Paulo, entidade fundada por Lula e Fidel Castro, entre outros, e cujas atas podem ser acessadas na internet, mostra que não há acasos. Assiste-se, de fato, a um processo articulado de socialização do continente de matriz autoritária. E o presidente da República é um dos líderes, talvez o mais expressivo, dessa progressiva estratégia de estrangulamento das liberdades públicas. A fórmula Lulinha paz e amor acabou. Agora, com o Estado aparelhado, o Congresso dominado (a aliança governista terá ampla maioria no Legislativo), e a imprensa fustigada, o lulismo mostra sua verdadeira cara: o rosto do caudilhismo.

Cabe à imprensa, num momento grave da história da democracia, denunciar a tirania que vem por aí, mesmo quando camuflada pela legitimidade das urnas. Respeitamos, por óbvio, o processo eleitoral. Mas denunciamos as estratégias gramscianas de tomada do poder. O papel da imprensa não é estar do lado do poder e, muito menos, aplaudir unanimidades momentâneas. Nossa função é mostrar o que é verdadeiro e relevante.

Tentativas de controle dos meios de comunicação, flagrantemente inconstitucionais, serão repudiadas pela imprensa séria e ética, pelos formadores de opinião (que não vendem suas consciências em balcões de negócios) e pela sociedade. Os brasileiros apreciam a democracia. Assim como condenaram os regimes de exceção, não aceitam projetos autoritários que, sob o manto da justiça social, anulam um dos maiores bens da vida: a liberdade.

(*) Carlos Alberto Di Franco é professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra.

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