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18.04.2010. Artigo: Rio de Janeiro - A mecânica das águas

 (*) Léo Lince

Por acaso, azar ou ironia do destino, o presidente Lula estava no Rio de Janeiro quando o manto da tragédia envolveu a cidade. Tinha vindo para o de sempre (sapatear em palanques), mas a fúria dos elementos naturais estragou-lhe a festa. As obras que veio inaugurar estavam inundadas e, no calvário imenso da comoção coletiva, reduzidas à sua diminuta condição de vitrine.

Diante da reversão de expectativas, o presidente, constrangido, deu entrevistas ao lado do governador Cabral, desarvorado. Um jogral de impropriedades, um gravame a mais no doloroso momento. Culparam a chuva e a natureza. Todos sabem que as encostas e as montanhas, o mar e as marés, as águas de março que fecham o verão, são componentes perpétuos da cidadela de São Sebastião. Culparam os governos anteriores.

No caso do Lula, o governo federal anterior é o dele mesmo, e o clã dos garotinhos não governaria o Rio sem o seu apoio decisivo. E, suprema ignomínia, culparam as vítimas.

O governador Cabral teve o desplante de afirmar que a multidão de miseráveis segregados em áreas de risco, como já dissera antes que mãe favelada é matriz de bandidos, lá estão por serem portadores de "ímpetos suicidas".

São outras as causas da tragédia. Não se trata de castigo de Deus, obra da natureza, nem culpa das vítimas. Um estudioso, o professor Luiz César Ribeiro, coordenador do Observatório das Metrópoles, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirmou categórico: "a tragédia do Rio é fruto da gestão urbana equivocada". Segundo ele, "os governantes são comandados por elites que se orientam por uma concepção gerencial que pretende tratar as cidades como se fossem empresas".

O diagnóstico dos problemas e as equações capazes de solucioná-los estão ao alcance da mão em nossos centros de excelência em pesquisa. Se não rende lucro rápido aos magnatas da especulação imobiliária, que são também grandes financiadores de campanhas eleitorais, o projeto não sai da prancheta.

A outra faceta da nossa sereníssima República, que começou mal em Canudos e segue assentada sobre a mais brutal desigualdade, é a força insuspeitada do povo diante da dor indizível. Em fração de segundos a servidão se transfaz em grandeza. Cava a terra com as mãos para salvar os vizinhos e abre clareiras de luz para a solidariedade comunitária.

É antes de tudo um forte, como o sertanejo de Euclides da Cunha. Aliás, o cenário da tragédia em tudo nos faz lembrar os sertões de Euclides e Antonio Conselheiro. O termo "favela" nos veio de Canudos. As primeiras ocupações em nossas encostas, feitas por recrutas desmobilizados e abandonados ao Deus dará, resultaram do rescaldo daquela guerra contra a pobreza criminalizada.

A nossa metrópole, urbe monstruosa, também é uma "Tróia de taipa", onde a maioria excluída continua a padecer no vale de lágrimas. No essencial, tudo segue no mesmo diapasão. A miséria material em que vive a maioria e a miséria moral dos governantes são o verso e reverso da mesma medalha. Dimensões distintas do mesmo mar de lama posto em destaque pela mecânica das águas.

(*) Léo Lince é sociólogo. Artigo publicado no Correio da Cidadania.

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