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23.02.2010. Os jornalistas e a Era Digital

 (*) Agência de Notícias

Nós jornalistas vivemos uma situação quase esquizofrênica. Quando pensamos no futuro, somos contagiados por um otimismo eufórico diante das fascinantes perspectivas abertas pela tecnologia digital para a atividade informativa. Mas quando olhamos para o presente, mergulhamos no pessimismo porque a saída mais provável para a crise na imprensa é o desemprego.

Ora descobrimos como o jornalismo pode ser fascinante ao nos permitir acessar qualquer jornal do mundo ou entrevistar qualquer personalidade mundial via correio eletrônico, blog ou twitter. Mas no minuto seguinte levamos um choque de realismo ao verificar que não temos uma fórmula que nos garanta a sobrevivência neste paraíso informativo.

Este é o dilema que todos nós vivemos. Uns mais outros menos, dependendo das circunstâncias e do contexto. Mas ninguém escapa desta gangorra entre a ilustração usada no projeto Zero Assignment deslumbramento tecnológico e o medo da insegurança financeira. E vai ser assim ainda por algum tempo, porque a defasagem entre o digital e o analógico poderá ser reduzida e administrada, mas não desaparecerá.

Esta bipolaridade jornalística pode ser ruim para nós, como seres humanos, mas ela tem pelo menos um mérito. Ela está mostrando algo que durante anos nos simplesmente ignoramos: a diferença entre a comunicação como ingrediente básico na vida social, e a comunicação como negócio, como processo que gera valor agregado à informação.

Se pensarmos nesta ótica, o jornalismo tem um futuro muito promissor como agente da comunicação social graças às inovações tecnológicas que ampliaram enormemente a parcela da população mundial com acesso à informação seja como consumidor seja como produtor autônomo.

Mas o negócio da comunicação, que até agora garantia o salário dos jornalistas profissionais, este está com seus dias contados, gostemos ou não. Quando mais tardar a aceitação deste fato, maior será o tempo perdido na busca de alternativas e maiores os prejuízos tanto dos patrões como dos assalariados nas industrias da comunicação.

O problema atual é que os patrões insistem em minimizar as perdas em vez de colocar todas as fichas na busca de um novo modelo de negócios. E os jornalistas procuram esticar a dependência do salário pago pelas empresas, apostando que elas vão tirar um coelho da cartola na busca da sustentabilidade financeira.

Não dá mais para pensar em jornalismo como uma combinação de atividade social e função assalariada. A realidade digital criou condições para dissociar uma da outra, como acontecia no início do jornalismo, nos idos dos séculos XVIII e XIX, antes do surgimento da indústria da comunicação, um braço da industria cultural.

O que o jornalista contemporâneo precisa entender é que antes da internet, exercer a profissão, ou seja coletar, processar e publicar informações, era uma atividade que só poderia ser desenvolvida dentro de uma estrutura empresarial, na grande maioria dos casos. Hoje, esta situação já não existe mais, porque a essência do jornalismo pode ser praticada fora da industria da comunicação, graças à Web.

Mas é claro que, para exercer sua atividade, o autônomo precisa também de sustentabilidade financeira, ou seja receitas que garantam sua sobrevivência pessoal e o avanço de seu projeto profissional. De alguma forma enfrenta o mesmo dilema das empresas. Mas são dois processos diferentes porque os objetivos são distintos: o profissional dá prioridade à informação depois à receita, enquanto as empresas apostam primeiro no lucro.

Tudo isto para dizer que, na minha opinião, os jornalistas devem se preocupar é com o seu próprio modelo de negócios, em vez de ficar discutindo horas e horas sobre o modelo das empresas. A solução do problema delas não vai resolver o nosso, porque já não há mais muitas dúvidas de que, seja qual for a nova receita corporativa para a sobrevivência na era digital, ela vai ser totalmente diferente do esquema atual vigente na imprensa.

E se há alguma luz no fim do túnel da sustentabilidade financeira do jornalismo autônomo na Web, esta parece ser a da colaboração e produção coletiva.

Por Carlos Castilho.

(*) Observatório da Imprensa

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