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02.01.2010. Opinião: O jornalismo de resultados

 (*) Alberto Dines

O caudilho Hugo Chávez quer controlar a sociedade venezuelana por meio do controle dos meios de comunicação. A suspensão das emissões da RCTV e de outros cinco canais de TV a cabo, por omitirem a íntegra do seu discurso do sábado (23/01), revela uma estratégia escancarada de coerção.

A China é mais sutil: exerce um policiamento informativo ainda mais drástico através das intrincadas ferramentas da internet, hoje acessada por 360 milhões de usuários virtualmente prisioneiros da censura política. A filtragem das informações é silenciosa: não se faz apenas por intermédio do buscador Google, mas também através do controle do que os internautas chineses podem emitir.

Nosso Big Brother (criação original de George Orwell, no 1984) é generoso, paternalista, ameno e difuso: não é estatal, nem é privado, atende simultaneamente aos interesses de ambos – é misto. Quando foge da exposição prolongada das tragédias está apostando numa temporada de euforia das massas e antecipando-se ao interesse recôndito de um governo altamente popular, prestes a ser avaliado nas urnas. Ao mesmo tempo, serve aos seus próprios interesses como arauto e beneficiário da anunciada prosperidade.

Assunto secundário

Ninguém emitiu decretos ou diretrizes para tirar do noticiário as tragédias de Angra do Reis e de Ilha Grande – foi a própria mídia, acostumada a conter-se em coberturas fragmentadas, que mostrou sua incapacidade de mergulhar em empreitadas de longa duração. A manutenção do dilúvio no Sudeste do país ao longo de mais de um mês, ao invés de reforçar e adensar a cobertura, tornou-a aguada, episódica, sazonal.

O Carnaval está aí, as campanhas publicitárias das cervejeiras exigem conteúdos descontraídos, prazerosos e descartáveis. Gente deprimida por tragédias não consome, não gasta, recolhe-se. Melhor sentar no banco dos réus os fenômenos climáticos do que os administradores preocupados apenas com os próximos mandatos; ou empreiteiras irresponsáveis ou engenheiros incompetentes, incapazes de prever situações-limite.

Assim como o tufão Katrina tornou-se paradigma da incúria e estupidez da administração de George W. Bush, a cobertura do apocalipse haitiano está fadado a converter-se num caso de estudo sobre o horror ao horror. Antigamente dizia-se que os jornalistas gostavam de sofrer. Hoje, ocupados com as novas tecnologias, percebe-se que desligaram as tomadas da solidariedade. O jornalismo de resultados resultou na desumanização do jornalismo.

Menos de uma semana depois da catástrofe do Haiti, o Jornal Nacional e a Central Globo de Jornalismo optaram por compactar, burocratizar e neutralizar uma cobertura iniciada com grande dramaticidade e humanidade (ver, neste Observatório, "Uma tarefa para a mídia" e "Até quando?"). Na véspera de completar duas semanas (segunda, 25/1), enquanto a mídia internacional não arrefece e mantém a intensidade inicial, nossa maior rede aberta de TV, e uma das mais importantes do mundo, leva a uma parte substancial da população brasileira um vigésimo do tempo e da atenção ao Haiti que a sua co-irmã, a Globo News (edição das 22h) oferece à restrita e qualificada audiência.

Tudo se ajeita

A leitura dessa estratégia informativa é inequívoca: as classes médias, enfurnadas nas ilhas da fantasia, devem contentar-se com as ficções enganosas das telenovelas separadas por um intermezzo noticioso, charmoso e rápido. Apenas as elites com TV a cabo têm o privilégio de viver, conviver e encarar o mundo como ele é.

Seria injusto circunscrever essas avaliações à Venus Platinada: na segunda-feira (25/1) os três jornalões nacionais recusaram-se a destacar em suas capas o vasto noticiário sobre o Haiti contido nas páginas internas. Entende-se: no fim do feriadão na maior cidade do país melhor deixar as primeiras páginas ocupadas por amenidades. A minoria acostumada a ler o jornal inteiro que vá sofrer e chatear-se sozinha.

Habituada aos longos períodos de autocensura e autocontrole (no Estado Novo e depois do regime militar), nossa mídia encontrou uma maneira de ajustar-se aos interesses dos ocupantes do poder. Às vezes acontece um curto-circuito – como os anúncios de conferências públicas para discutir questões sensíveis –, então todos se-estranham, mas logo tudo se ajusta.

O Big Brother made in Brazil funciona num circo, é do bem, boa praça, gente boa.

(*) Alberto Dines é jornalista, pesquisador e coordenador do site Observatório da Imprensa.

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