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21.08.2008. Sustentabilidade na arquitetura pós-moderna

 (*) Agência de Notícias

Conhecido pela construção de torres arranha-céu, museus pós-modernos e, principalmente, pela pirâmide de vidro do Louvre, em Paris, o arquiteto chinês Chien Chung Pei, encara agora os desafios de criar obras eficientes para os usuários, belas para a paisagem da cidade e ambientalmente corretas. “Sustentabilidade não é algo negociável na construção”, disse Didi Pei, como é mais conhecido, em entrevista para a CarbonoBrasil durante uma visita ao Brasil na última semana.

Formado em física pela Harvard em 1968, graduado em design quatro anos depois e com mestrado em arquitetura, Didi Pei ganhou experiência profissional trabalhando 20 anos no escritório de arquitetura do pai, I.M.Pei.

Em 1992 criou, junto com seu irmão, a Pei Partnership Architects, uma das empresas mais conhecidas do segmento, com sede em Nova York, nos EUA, e escritório na China. Entre seus projetos estão o Prédio do Banco da China, em Pequim, que é o edifico de escritórios tecnicamente mais avançando no país. Hoje trabalha em projetos com o Museu de Ciência de Macau, Centro Financeiro Internacional de Shenyang, na China, e outros pelo mundo.

CarbonoBrasil – Quais as principais diferenças na realização de projetos de edifícios para países distintos, como China e Estados Unidos?

Chien Chung Pei – Eu acho que, para cada lugar onde você trabalha, o edifício deve parecer que pertence àquele espaço. Se você é arquiteto, precisa entender o lugar antes de desenhar qualquer coisa.

CB – E em termos de sustentabilidade?

Pei – Este movimento está crescendo muito rápido. Mas eu acho que está acontecendo mais rapidamente fora dos Estados Unidos. Eu temo que nós, os Estados Unidos, estamos um pouco atrás. Mas há muitos arquitetos e aqueles que trabalham internacionalmente devem se sensibilizar mais com este assunto porque no exterior há uma demanda maior. Até mesmo nos meus projetos no Brasil, as pessoas querem ter sustentabilidade. Isto não é algo negociável na construção.

CB – E como você acha que é possível incentivar um turismo sustentável, sobre o qual se referiam alguns participantes neste evento (1)?

Pei – Olha, eu não sei muito bem o que turismo sustentável significa. Eu acho que são duas coisas distintas que acontecem ao mesmo tempo. Se você tem edificações sustentáveis, elas irão promover turismo, em outras palavras, despertarão interesse. Eu tenho um grande amigo meu que escreveu um livro sobre design sustentável em todos aspectos, não apenas arquitetura, e que tem um capítulo sobre Curitiba. Se eu tivesse mais tempo eu a teria visitado. Para mim, este é um lugar de referência de onde ir para ver idéias inovadoras. Eu acho que muitas pessoas só pensam na sustentabilidade como engenharia. Não é engenharia, é mudar o modo como você pensa.

CB – E como fazer isso?

Pei – Eu acho que é muito fácil pensar: eu vou consumir 20% menos algo, então meu edifício será sustentável. Eu acho mais importante olhar todo o quadro, ver o que é o edifício. Então é a isso que me refiro. Eu acredito na idéia do que chamamos LEED (2) nos Estados Unidos, mas eu particularmente não concordo com o modo como contam os pontos, considerando um mesmo valor para diferentes quesitos. Não são iguais. Você precisa criar algum mecanismo para dar pontuação, mas acaba simplificando demais as coisas.

CB – Este é o movimento ‘Greenbuildings’, certo? Você acha que isto é uma espécie de moda no setor da construção ou não, é uma tendência da arquitetura deste século?

Pei – Não. Eu acho que é algo que temos que fazer. Não temos escolha. A população do mundo está ficando cada vez maior. Se, talvez, chegássemos a um ponto de estabilização da população, então poderíamos dizer: Bem, tudo está estável, ficamos um pouco mais eficientes e o consumo de energia caiu. Talvez nesta situação pudéssemos dizer que não há nada com o que se preocupar. Mas o fato é que a população mundial ainda está crescendo e o consumo por pessoa está aumentando. Eu não estou só me referindo ao BRIC (3), mas por toda a África, todos os lugares, o consumo está subindo. Então precisamos ser muito cuidadosos no modo como tratamos nosso planeta.

CB – Alguns especialistas dizem que as cidades são as soluções para as questões ambientais, outros afirmam o oposto, que são a causa. Qual a sua opinião?

Pei – Eu acho que as cidades desenhadas corretamente são a solução. E de qualquer maneira este é o padrão. Em todos os países em desenvolvimento, você tem um movimento muito significativo das pessoas indo do campo para as cidades. E é vastamente conhecido que as pessoas que vivem nas cidades consomem menos per capita, de praticamente tudo, do que aquelas que vivem no campo. Eu acho que a resposta está ali, mas deve ser feito com muito cuidado. Aqueles de nós responsáveis por desenhar cidades devem planejá-las de um modo que se mantenham habitáveis para mais pessoas.

CB – Esta pode ser uma resposta para a pobreza?

Pei – No Brasil, por exemplo, você tem diferentes manifestações da pobreza nas cidades. Eu estava até ontem falando com algumas pessoas sobre a pobreza em São Paulo e a comparando com o Rio. São diferentes. Mas claro, eu acredito que nós precisamos trabalhar para diminuir a lacuna entre o muito rico e o muito pobre, sem tirar o incentivo para criar. A humanidade se torna melhor porque criamos coisas novas, nós inventamos, fazemos arte, escrevemos novos livros. Este é o nosso impulso. E as pessoas também criam novos negócios, então não podemos parar isso, mas temos que reduzir a diferença entre os muito ricos e muito pobres.

(1) Entrevista realizada durante o evento Architectour, em Florianópolis (SC)
(2) Leadership in Energy and Environmental Design (LEED), é um padrão de construções ambientalmente corretas criado pelo Conselho de Construções Verdes dos Estados Unidos
(3) Termo criado em 2001 para designar os quatro principais países emergentes - Brasil, Rússia, Índia e China

(*) Carbono Brasil - 18.08.2008

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